30/08/2017 - 10h46 | Atualizado em 22/09/2017 - 21h22
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Nestor Rios e as madeixas de Getúlio

Artigo de autoria do magistrado Elmar Carvalho

Dois ou três domingos atrás, fui à casa de meu colega e amigo João Batista Rios, juiz aposentado, teólogo e agora diácono, além de membro do Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de Teresina. Estava acompanhado do historiador e poeta Ivanildo de Deus, que o conhecia de Luzilândia, quando nessa cidade Batista Rios exerceu a judicatura por um breve período, na qualidade de juiz substituto, no início de sua carreira.

Tive a oportunidade de recordar a minha amizade e admiração pelo seu saudoso e venerável pai, Nestor Rios. Vale a pena repetir o que já contei alhures: Nestor passava mensalmente na agência da ECT, onde eu trabalhava, a exemplo do que fazia em outras repartições e empresas, para recolher irrisórios óbolos, entre os quais os meus, para alimentar e vestir os seus velhinhos, na qualidade de homem de boa-vontade e vicentino convicto. Como se fora uma nova multiplicação de peixes e pães, Nestor, com esses parcos recursos, construiu uma pequena vila de casas para abrigar os seus pobrezinhos.

Em meio a essa conversa, Batista Rios nos contou que elaborava um aluá, em receita própria que ele, por não ser egoísta, não esconde de ninguém. Enche várias garrafas ou botelhas, para presentear algumas pessoas, que lhe admiram e louvam o sabor. Para comprovar o que dizia, encheu três cálices com esse exótico néctar. Dou aqui o meu testemunho: foi o melhor e mais requintado aluá que já sorvi, ou melhor, degustei em toda a minha vida. Portanto, não era fanfarronice e muito menos propaganda enganosa o que ele nos afiançara. Assim, Batista Rios, além de notável anfitrião e causeur, é também um extraordinário alquimista, e seu aluá jamais será assaz louvado.

Dando sequência à conversa, o nosso anfitrião nos contou um caso interessante sobre seu pai, e que tem uma pitada histórica, anedótica e jocosa, de que farei abaixo um apertado resumo.

Quando Getúlio Vargas esteve em Parnaíba, em sua campanha eleitoral para presidente da República, hospedou-se na casa do médico João Orlando de Moraes Correia, ex-prefeito do município. Por causa das demoradas e por vezes penosas viagens da campanha, notou-se que ele estava com o cabelo um tanto comprido, razão pela qual os anfitriões resolveram mandar um positivo à melhor barbearia da cidade, para que viesse um barbeiro com a finalidade de aparar as madeixas getulinas ou varguenses. Contudo, nenhum dos barbeiros se achou com coragem suficiente para cumprir a missão.

Esse receio dos mestres parnaibanos da tesoura e do pente até me fez recordar – e por isso abro aqui este pequeno parêntese – um episódio anedótico, em que um barbeiro da Marinha Brasileira anunciara desejava matar o almirante e comandante da armada. Este, ao saber da ameaça, de forma ousada e corajosa, se apresentou ao barbeiro, para que lhe fizesse a barba. O barbeiro, ao empunhar a navalha, tremia tanto, que admitiu não ter condições de executar o serviço. Desse modo a ameaça tornou-se apenas uma vexatória bravata e nada mais.

Os fígaros de Parnaíba, ante o impasse criado pelo medo, informaram que apenas Nestorzinho, o nosso pequeno e bravo Nestor, teria perícia suficiente para cortar os fios capilares do pequenino grande homem. O mensageiro foi à sua cata, que na época trabalhava na EFCP – Estrada de Ferro Central do Piauí. Nestor não se fez de rogado, e muito menos temeu, e menos ainda tremeu ao cumprir a missão. Manipulou a tesoura e a navalha com a perícia de sempre. Cabe-me esclarecer que ele não era um profissional, mas aprendera o ofício, do qual se tornara virtuose, apenas para servir ao próximo, sobretudo amigos, colegas e vizinhos.

Ao terminar o serviço, foi indagado por Gegê (também conhecido por “pai dos pobres” ou “pequeno ditador”, conforme a simpatia ou ideologia de quem assim o chamava), sobre quanto lhe devia. Nestor lhe respondeu que nada. Getúlio insistiu, e lhe perguntou se ele não desejava algum favor ou se não tinha alguma pendência para com o governo federal. O nosso fígaro lhe respondeu, então, que a União devia uma verba trabalhista aos servidores da Estrada de Ferro em que trabalhava.

Vargas lhe disse que, se fosse eleito, um de seus primeiros atos seria pagar esse débito. Recomendou que um assessor anotasse a reivindicação. Com efeito, no primeiro ou num dos primeiros números do Diário Oficial da União, ele determinava o pagamento dessa verba laboral. Isso até nos causa admiração e mesmo perplexidade, numa época em que os políticos, em sua quase totalidade, se excedem em não cumprir o que prometem; em que prometem já com a intenção de não cumprir as suas falaciosas promessas eleitoreiras.

Nestor Rios, em sua humildade de homem bom, de homem do bem, pai de meu amigo e colega Batista Rios, foi ovacionado por seus colegas, e carregado nos ombros, em verdadeira apoteose, em legítima procissão gloriosa, como se fora um dos césares romanos em seus dias de triunfo imperial.


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