15/03/2017 - 10h48 | Atualizado em 22/09/2017 - 21h22
Por Administrador - admin@amapi.org.br

No Cemitério da Ressurreição

Artigo de autoria do magistrado Elmar Carvalho

Tendo lido, em determinado site, que o sepultamento do juiz de Direito Samuel Mendes seria às 16 horas, cheguei nesse horário. Contudo, recebi da administração do cemitério o aviso de que a cerimônia fúnebre seria às 17 horas. Em vista disso resolvi olhar as diversas sepulturas, para ver se encontrava a de algum amigo, conhecido ou parente.

Em seguida, fui inspecionar o jazigo que comprei há mais de vinte anos, felizmente ainda virgem, uma vez que minha mãe pediu para ser sepultada em Campo Maior, perto dos túmulos de seu irmão e de sua irmã e cunhado. Quando eu estava lendo sua placa indicativa, vi a uns quarenta metros um homem, que também lia algumas lápides.

Quando ele se aproximou de mim, eu lhe disse que estava olhando minha própria sepultura. Notei que ele teve leve sobressalto, mas, quando percebeu que eu não era nenhum fantasma, muito menos alma penada, sorriu e me cumprimentou. Disse-lhe que viera, por equívoco informativo, muito cedo ao sepultamento do colega Samuel. Respondeu-me que laborara no mesmo engano.

Quando fiquei sabendo que ele era de União, onde conhecera o Dr. Samuel, quando este fora o titular daquela Comarca, notei que ele tinha semelhança fisionômica com o jornalista Fenelon Rocha, tendo ele me respondido que era seu irmão. Logo percebi que o advogado Dilson Reis da Rocha tinha profunda consideração, respeito e amizade ao falecido magistrado, por sua capacidade de trabalho, zelo e correção.

Disse-lhe que quando fui juiz substituto em Curimatá tomara conhecimento de que ele servira naquela longínqua Comarca, e que fora um bom e operoso juiz. Quando respondi, por quatro ou cinco meses, pela Comarca de Inhuma, um servidor, vendo meu esforço em tentar manter o serviço em dia, me falou que, pelo meu temperamento e trabalho, tinha semelhança com o Dr. Samuel, que fora, salvo engano, o responsável por sua instalação. Interpretei as palavras do serventuário como um discreto elogio. Tive oportunidade de lhe contar esse espontâneo depoimento.

Prometi ao Dr. Dilson Rocha, que também é procurador da Assembleia Legislativa, que lhe repassaria alguns livros de minha autoria, principalmente Confissões de um juiz. Nesse livro há um retrato de Samuel a meu lado. Através de e-mail, ele acusou o recebimento das obras, e disse que a sua filha, que estava preparando um trabalho acadêmico, não sei se de mestrado, aproveitaria o meu poema Noturno de Oeiras como citação ou epígrafe de algum capítulo.

No serviço fúnebre que antecedeu o enterro, apresentei minhas condolências aos familiares, inclusive sua viúva, que o pranteava, e a seu irmão Emanuel, que fora meu colega no curso de Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso, UFPI-Parnaíba. Na hora melancólica da Ave Maria, em que o Sol tombava na linha do horizonte, entregamos aos cuidados da mãe terra o corpo do digno magistrado Samuel Mendes Morais, cuja expressão facial se mostrava serena, como sereno ele fora em sua vida e no exercício da magistratura.

E sei que a mão de Deus, a mão direita de Deus, como nos versos de Antero de Quental, o acolheu e o agasalhou sem ressalva.


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