02/07/2015 - 16h07 | Atualizado em 22/09/2017 - 21h18
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Homenagem ao juiz Bernardo Lucas Mateus

Artigo de autoria do magistrado Elmar Carvalho

No dia 7 de maio, à tarde, segui para Parnaíba. No dia seguinte, às 19:30 horas, seria lançado meu livro Confissões de um juiz, que teria apresentação do poeta e escritor Alcenor Candeira Filho. Alguns poemas de minha autoria seriam interpretados pela atriz Carmem Carvalho. A solenidade aconteceria no auditório SESC/Avenida Presidente Vargas.

Pretendia prestar uma homenagem pessoal ao impoluto magistrado Bernardo Lucas Mateus, que relevantes serviços prestou à Justiça, ao exercer seu cargo com dignidade em diversas Comarcas do Estado do Piauí. Por essa razão, ao chegar à cidade de Buriti dos Lopes, resolvi visitá-lo. Minha mulher pediu que fôssemos antes à casa do senhor Bezinho Val. Dediquei-lhe um exemplar, e autografei outros, que deixei a seu cuidado, entre os quais os destinados ao advogado Bernildo Val, seu filho e prefeito do município, ao juiz de Direito Marcos Cavalcante e à biblioteca pública municipal.

O senhor Bezinho Val pediu-nos para nos acompanhar na visita que faríamos ao Dr. Bernardo Lucas Mateus, o que muito nos gratificou. Em seus mais de oitenta anos de idade, acho que quase 85, demonstrou muita agilidade e vigor ao entrar ou sair da picape. O anfitrião nos recebeu com a sua natural fidalguia. Mantivemos rápida palestra, embora ele estivesse deitado em uma cama, a tomar soro ou medicamento intravenoso, sob os cuidados de uma enfermeira.

Vários filhos, entre os quais o Luquinha, netos, parentes e amigos se encontravam na casa. Senti que ele não poderia comparecer ao lançamento de meu livro, de forma que lhe autografei um exemplar, e me despedi. Pouco mais de um mês depois, recebi, através do Canindé Correia, a notícia de seu falecimento, e dias após o Paulo César Lima me pediu, através de telefonema, para que eu escrevesse um texto, que ele leria na missa de sétimo dia; o escrito integraria um folder a ser distribuído no final do ato religioso.

Nesse texto, uma espécie de crônica, eu dizia não saber se o saudoso magistrado teria conseguido ler o meu livro, em virtude de seu grave estado de saúde, mas que desejava tivesse isso acontecido. Um ou dois dias depois, quando o Paulo voltou a me telefonar sobre o meu depoimento, falei também com o Luquinha. Este, emocionado, já tendo lido o meu texto, me revelou que seu pai, certa madrugada, acordara e perguntara pelo meu livro, que lhe foi entregue.

Acomodou-se em sua cadeira preferida, e leu algumas páginas. Ao deitar-se para dormir, guardou cuidadosamente o volume de minhas Confissões entre as dobras de seu pijama. Esse ato de carinho e apreço me vale mais do que muitos elogios e certas “homenagens”. Segue, abaixo, o meu depoimento sobre o nobre magistrado, lido na missa de sétimo dia, celebrada na matriz de Nossa Senhora dos Remédios, no dia 22, às 19 horas:

“Atendendo pedido do amigo Paulo César Lima, meu conhecido desde o final dos anos 1970, desejo prestar esta singela homenagem a meu colega de judicatura Dr. Bernardo Lucas Mateus, que engrandeceu e dignificou a magistratura piauiense.

Em sua simplicidade e modéstia, nunca se preocupou em ser glorificado pela toga que vestiu, mas, ao contrário, honrou e dignificou as suas vestes talares. Despido de vaidade e ostentações, não se preocupou com a ritualística forense e eventuais honrarias de seu cargo, mas, sim, em agir com Justiça e equidade, sem apego a formalismos desnecessários, que apenas contribuem para entravar a marcha processual.

Em sua carreira, foi juiz em várias Comarcas, desde esta, a sua querida Buriti dos Lopes, até a longínqua Corrente, no extremo sul de nosso estado, nas ribas do Corrente e do Gurguéia. Por vários anos, foi titular do Poder Judiciário em Barras, município de rica tradição cultural e de portentosa história, que importantes intelectuais e governadores legou ao Piauí e ao Brasil, em cujo rincão nasceram muitos de meus ancestrais.

O Dr. Bernardo Lucas Mateus sempre foi respeitado em sua cidade natal e nas Comarcas onde exerceu suas funções de julgador. Embora não fosse um ermitão, por causa de seu temperamento e talvez também em virtude de seu cargo era discreto e de postura algo reservada, o que mais contribuía para o enaltecimento de sua figura de julgador probo e justo, sempre correto em suas decisões interlocutórias e sentenças.

Fez por merecer o respeito e o acatamento de seus conterrâneos, de seus jurisdicionados e de seus pares. Magistrado emblemático, nunca se ouviu falar de fatos, atos, feitos e malfeitos, que pudessem macular a sua biografia, a sua imagem de magistrado imparcial. Ao contrário, as referências a sua pessoa, tanto como cidadão como na qualidade de juiz, eram sempre as melhores possíveis, e as suas qualidades, de que não fazia alarde em sua modéstia, eram sempre reconhecidas.

Ao aposentar-se, retornou ao seu torrão natal, à sua nunca esquecida cidade de Buriti dos Lopes. Recolheu-se à sua velha morada solarenga, uma verdadeira quinta, banhada por um córrego e ornada por exuberantes e frondosas árvores, a ler os seus livros e a fazer as suas meditações. De maneira discreta, sem que uma das mãos soubesse o que fazia a outra, sem propaganda e finalidades espúrias, praticou a caridade, fez o bem aos seus semelhantes, em obras que não preciso aqui declinar.

Embora não o conhecesse há longo tempo, exceto de nome, algumas vezes o visitei em sua residência. Sempre me acolheu com lhaneza e alegria. Encetávamos rápida conversa, em que lhe pude perceber o interesse cultural. Notei que ele tinha considerável conhecimento da geografia e, sobretudo, da história do Piauí. Repassei-lhe alguns livros de minha autoria.

No dia 7 de maio, ao cair da noite, em companhia de minha mulher Fátima e do Sr. Bezinho Val, o visitei pela última vez. Não obstante muito fragilizado pela doença, nos recebeu com muita alegria. Meu objetivo era convidá-lo para a solenidade de lançamento de meu livro Confissões de um juiz, em que lhe desejava prestar singela homenagem pessoal por sua judicatura digna e honrada, mercê de suas virtudes pessoais, que se refletiram em sua conduta magistratural.

Deitado em seu leito, sob os cuidados de uma enfermeira, sabia que ele não poderia comparecer ao evento, que aconteceria na noite do dia seguinte. Autografei-lhe um exemplar, que lhe entreguei. Não sei se ele conseguiu lê-lo, ao menos algumas páginas. Tenho certeza de que o faria, se a saúde lhe permitisse.

Dessa última visita, ficou-me a imagem, que para sempre conservarei, de um homem bom, cordato, que aceitava com resignação o sofrimento de sua doença, sem queixas e sem mágoas. Não parecia ter medo de que o termo de seus dias parecia estar próximo. Deu-me a impressão de que aceitava mansamente a cortina de sua vida estivesse a se fechar.

Consta na Bíblia que o rei babilônico Belsazar, no festim em que ele conspurcou os vasos sagrados do Senhor, viu estampar-se na parede do palácio real este letreiro: “Mene, mene, tequel, ufarsim.” Devidamente interpretada pelo profeta Daniel, a frase foi traduzida, e significa: “Pesado foste na balança, e foste achado em falta.”

Certamente Bernardo Lucas Mateus, que na sua condição de magistrado usou a balança da justiça humana com todo cuidado e cautela, tendo em mente a advertência de Jesus Cristo – “a medida que usarem, também será usada para medir vocês” – ao transpor os umbrais de uma das moradas do Senhor, encontrará escrita na parede, em letras capitulares e cintilantes: ‘Pesado foste na balança, e foste achado digno de entrares. Sejas bem-vindo.’”  


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