14/05/2015 - 16h34 | Atualizado em 22/09/2017 - 21h17
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Posse do Juiz Sebastião Firmino na Almapi

Artigo do magistrado Elmar Carvalho

I

Na tarde de sexta-feira, dia 24, o escritor Herculano Moraes me telefonou para me dar a notícia de que o magistrado Sebastião Firmino Lima Filho tomaria posse de sua cadeira na Academia de Letras da Magistratura Piauiense, cuja solenidade, presidida pelo des. Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, aconteceria a partir das 19 horas, e acrescentou que eu seria o orador de sua recepção. Informou-me, a meu pedido, que o patrono da cadeira era o desembargador Robert Wall de Carvalho. Ante o fato consumado, tratei de fazer um esquema mnemônico de meu improviso.

Sabia que o último ocupante da cadeira fora o desembargador Tomaz Gomes Campelo, que eu conhecera há mais de 17 anos, quando ele já era inativo e eu me encontrava prestes a ingressar na magistratura. Conhecia-lhe os principais fatos de sua biografia. Por conseguinte, não teria dificuldade de me pronunciar sobre ele.

Com relação ao colega Sebastião Firmino, também não teria obstáculos em falar sobre ele, uma vez que já o conhecia há mais de uma dezena de anos. Após o telefonema de Herculano, recebi um e-mail do juiz Edison Rogério me recomendando não deixasse de falar sobre os dotes artísticos e esportivos do novel acadêmico. Segui a boa orientação, e não lhe regateei elogios nessas duas atividades.

Pesquisei dados sobre o patrono da cadeira. Vali-me dos monumentais Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Piauí, de Cláudio Bastos, que levou mais de 30 anos em sua elaboração, e Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, de Wilson Carvalho Gonçalves, meu amigo e confrade na Academia Piauiense de Letras. Tive a honra e satisfação de contribuir para a publicação do primeiro, quando eu era presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves.

A seguir, farei um apertado resumo do que disse em meu pronunciamento.

O desembargador Robert Wall de Carvalho nasceu em Caxias, em 1918, e faleceu em Teresina, em 1984. Figura emblemática da magistratura piauiense, é dela também um verdadeiro paradigma, pelas suas virtudes, capacidade administrativa e dotes intelectuais. Foi jornalista, professor, presidente e corregedor-geral do Tribunal de Justiça, membro da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Exerceu cargos hoje correspondentes a secretário de Estado. Um dos fundadores da Universidade Federal do Piauí, foi seu primeiro reitor.

Era filho de Cromwell Barbosa de Carvalho, de estirpes amarantinas e oeirenses, que exerceu quase todos os cargos exercidos pelo filho, entre os quais os de presidente do TJPI, secretário de Estado, jornalista, membro da APL e diretor da velha Faculdade de Direito do Piauí. Pelo lado materno descendia de industriais caxienses, inclusive dos Dias Carneiro, que instalaram famosa indústria têxtil em Caxias, no final do século 19.

Francisco Dias Carneiro, poeta e capitão de indústria, tem seu busto afixado no Pantheon caxiense, ao lado dos poetas e escritores Gonçalves Dias, Coelho Neto e Vespasiano Ramos. Segundo informação oral, que não tive condição de confirmar, o poeta Francisco Dias Carneiro fora casado com uma senhora do Rio de Janeiro, que teria falecido ainda jovem. O filho do casal teria sido criado pela família da mãe, na então capital federal.

Sobre essa ilustre família, da qual descendia Robert, já tive o ensejo de dizer: “No meu périplo caxiense, encontrei o prédio de extinta fábrica têxtil, que outrora fora símbolo de poder e de orgulho, com os seus operários e administradores na azáfama do dia a dia. Como os engenhos do romance de José Lins do Rego, o seu fogo de há muito já era morto. Todavia, um penacho de nuvem por detrás da alta e soberba chaminé, que, como uma torre de Babel, parecia querer desafiar o céu, provocou-me uma ilusão de ótica, dando-me a impressão de que ainda soltava as suas últimas baforadas de fumaça, e eu tive a ilusão de que os operários ainda teciam as peças de pano, e que os teares ainda se movimentavam com seus dedos de fiandeiras mecânicas. // Contudo, as plantas que nasciam na boca da chaminé me trouxeram de volta à triste realidade, e eu tive a nítida certeza de que o facho de vida da fábrica já estava morto e emborcado.”

Posteriormente, em conversas, soube que Robert Wall de Carvalho fora um exímio professor. Dava suas aulas sem anotações e sem necessidade de compulsar livros. Tinha boa dicção e postura muito ereta. De denso e aprimorado conteúdo, suas aulas eram quase conferências, em que o mestre se excedia em esmero e dedicação. Aposentou-se voluntariamente do cargo de desembargador em 1967, com apenas 49 anos de idade, como a lei da época permitia, não sei se por desapego a cargo público, ou se por ter pretensão política, ou se por outro motivo de foro íntimo.

De qualquer forma, como já disse, para além de ser uma personalidade emblemática da magistratura piauiense, é uma figura paradigmática, que lhe orna, de forma destacada, a galeria mais seleta e rigorosa.

II

Na sequência de meu improviso, obedecendo a meu esquema mnemônico, fiz o elogio do antecessor na cadeira acadêmica. Era ele o desembargador Tomaz Gomes Campelo, de quem cultivei a amizade ao longo de mais de 17 anos. Já então era ele aposentado, enquanto eu estava prestes a ingressar na magistratura. Sempre lhe admirei a lhaneza e a fidalguia. Essas qualidades se refletiam em sua sóbria elegância no trajar, e, sobretudo, no trato pessoal e em sua postura correta, mas sem afetação.

Nasceu ele no Dia de Reis, do ano de 1926, na localidade Rodrigo, município de Pedro II. Era exatamente um dia mais novo que meu pai, nascido no dia cinco de janeiro. Faleceu em 14 de abril de 2014. Nesse mês, no já longínquo ano de 1956, nasci, e nele, no dia 26, no ano de 2013, faleceu minha saudosa mãe. Por conseguinte, sou a ele ligado por coincidências de vida e morte.

Foi corregedor-geral da Justiça. Atingiu o grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Sublime Ordem Maçônica, a cujas colunas tenho a honra de também pertencer. Amante das artes e da cultura em geral, cultivava, sobretudo, a literatura, a cujos eventos era assíduo. Participativo, mesmo já em idade provecta, foi presidente da Academia de Letras do Vale do Longá, da qual igualmente sou membro. Outro ponto em comum: éramos sócios da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, da qual ambos fomos presidentes.

Amigo da Academia Piauiense de Letras, frequentava nossas reuniões ordinárias e solenidades com mais assiduidade que muitos de nossos confrades. Publicou vários artigos e crônicas, versando assuntos memorialísticos, históricos e culturais, cuja seleta seu filho Viriato Campelo deu à estampa após o seu falecimento. Dentre esses textos, o Pedra Serviçal, evocativo e sentimental, foi interpretado teatralmente pelo ator Pellé, na solenidade de lançamento da obra.

O desembargador Tomaz Gomes Campelo parecia trazer entranhada em sua alma toda a graça e louçania de sua bucólica e encantadora Pedro II, de clima ameno, agradável, e por isso mesmo chamada de “a Suíça piauiense”. Trazia na retentiva a beleza vetusta dos históricos solares e amplos casarões, prenhes de mistérios e recordações, um deles pertencente à sua grei.

Neste diário já tive a deixa de enaltecer a bela urbe, emoldurada pelos morros e serranias, que azulam e lhe engalanam à distância. Muitos defendem a tese de que Iracema, a bela e esbelta índia de longas madeixas negras e lábios de mel, teria nascido em Pedro II, já que Alencar dizia que ela nascera além, muito além da serra que se descortinava no horizonte.

Fiz, portanto, o justo elogio de um homem que primou em desbastar a pedra bruta, e que soube se transformar na pedra serviçal de sua elegíaca crônica. E o melhor, na parábola de Cristo, será aquele que melhor servir.

III

Dando continuidade a meu discurso, enalteci as qualidades que ornam a personalidade do juiz Sebastião Firmino Lima Filho, e discorri sobre alguns dados de sua biografia, alguns referentes a sua vida pessoal, outros a seu labor na magistratura.

Nasceu em Floriano, a cuja Academia de Letras, tão bem presidida por José Bruno dos Santos, tenho a honra de pertencer. Na Princesa do Sul radicou por várias décadas a professora Josefina Demes, que escreveu uma monumental obra historiográfica sobre essa agradável e bela terra, que me foi ofertada pelo seu sobrinho José Demes. Ausente de seu torrão natal por mais de trinta anos, Sebastião Firmino a ele retornou para exercer a judicatura, até conseguir sua remoção para a Comarca de Teresina.

O novel acadêmico é um homem polivalente, um talento multifacetado, um verdadeiro Proteu, por suas atividades polimorfas. Dessa forma, além de juiz, pratica com invejável maestria o tênis de mesa; é poeta e talentoso cantor; na infância e na adolescência foi um notável jogador de futebol, que chegou ao cúmulo da virtuose ao driblar-se a se próprio.

Na prática pebolista era um verdadeiro coringa, um legítimo homem de sete instrumentos, pois poderia atuar em todas as posições, e se o desejasse bateria o escanteio, cabecearia para o gol, e ainda se travestiria de goleiro para executar cinematográfica defesa.

Todavia, não há negar, sua maior qualidade esportiva é alcançada na prática do tênis de mesa. Notável mesatenista, já abiscoitou várias medalhas e troféus nos diversos torneios e campeonatos de que participou. Sua habilidade nessa modalidade esportiva é tão grande, que provocaria tonturas e torcicolos no espectador que tentasse acompanhar de perto as suas jogadas, mais semelhantes a prestidigitações de habilidoso mágico.

Como prova do que afirmo, o colega Edison Rogério me encaminhou e-mail, no qual me informava que Sebastião Firmino conquistara uma vistosa medalha de prata na mais recente versão dos Jogos Nacionais da Magistratura. Já antes o magistrado ER me havia sugerido que não deixasse de abordar, em meu discurso de recepção, as várias facetas e peripécias artísticas, esportivas e culturais do nosso mais novo imortal.

Julgo oportuno transcrever o seguinte trecho de um poema de sua autoria: “A bola vai / A bola vem / Belas jogadas também / É o tênis de mesa / Que vai andando tão bem.” Naturalmente “vai andando tão bem”, mas para ele, carrasco imperdoável de seus adversários. Nos referidos Jogos Nacionais venceu doze partidas, perdendo apenas a última, a de número 13, acho que apenas por causa desse número, que certamente lhe é aziago.

Na condição de poeta, sua temática é variada. Em seus versos exaltou as virtudes de sua mãe, e a beleza do esporte, da amizade, das mulheres e da natureza. A paisagem arquitetônica e natural do Piauí foi por ele enaltecida, mormente quando cantou os encantos de Floriano, Oeiras e Piracuruca. No poema relativo ao último município, fez referências a este cronista e ao desembargador Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, presidente e idealizador de nosso sodalício.

Entre as várias comarcas em que Sebastião Firmino atuou, destaca-se a de Oeiras, na qual ele foi titular do Juizado Especial Cível e Criminal – JECC, tendo sido sucedido pelo magistrado João Bittencourt, de quem fui sucessor. Sempre que ele me encontrava, sabedor de minha ligação afetiva e cultural a Oeiras, me estimulava a concorrer a uma vaga nessa comarca, quando surgisse a oportunidade, o que terminou acontecendo. Aliás, encerrei a minha carreira como titular do JECC da velhacap, para honra e gáudio meu.

No fórum dessa comarca, o juiz e meu amigo Edison Rogério mandou afixar um bonito banner, no qual se encontra estampado o meu poema Noturno de Oeiras, que caiu na graça dos amigos oeirenses. O ER teve ainda a iniciativa, na qualidade de juiz eleitoral, de utilizar trecho desse poema, para aferir se os candidatos objetos de reclamação eram ou não analfabetos. No documentário sobre Kátia Tapety, aparece esse banner sendo lido por sua protagonista, e nele prestou depoimento o nosso magistrado Sebastião Firmino.

O neófito membro de nosso silogeu, seja como poeta, seja como cantor, é um amado amante da beleza e das musas. Suas divas prediletas são Erato, inspiradora da poesia lírica, e Euterpe, divindade mitológica ligada à música. E sob o manto protetor dessas duas deidades, Sebastião nos encanta, com a sua poemática, com o seu talento vocal e com o seu carisma pessoal.


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