11/02/2015 - 16h41 | Atualizado em 22/11/2017 - 05h18
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Lagoa do Portinho - Uma morte anunciada

Artigo de autoria do magistrado Elmar Carvalho

A partir de 2010, quando a degradação da Lagoa do Portinho se fez notar de forma mais acentuada, os mais atentos e antenados puderam compreender que, se o Poder Público não adotasse medidas sérias em prol de sua preservação, essa laguna seria inexoravelmente extinta, o que é muito lamentável em razão de sua beleza ímpar.

Não há, a meu ver, que se falar em seca; secas sempre existiram, e a lagoa sempre se manteve na plenitude de sua beleza, alimentada pelo rio Portinho, que lhe dava a água e lhe deu o nome. O certo é que as providências nunca foram tomadas e hoje ela se encontra praticamente morta, com os bancos de areia expostos, ao longo de sua bacia.

Pelo que tenho lido e ouvido e observado, creio que a causa de sua decadência foi a degradação do rio Portinho, que lhe deu origem. Esse rio sofreu, certamente, ao longo de toda a sua extensão, problemas causados por desmatamento, queimadas, barramento e retiradas d’água, seja para fins agropastoris, seja para criatórios de camarão, além de outros malefícios, provocados pelo ser humano. É possível que as suas nascentes também tenham sofrido algum prejuízo pela ação humana. O fato é que a degradação desse curso d’água provocou a da lagoa. Dizem os entendidos que ela era mais bela, em sua plenitude, que a do Abaeté, tão enaltecida pelos poetas e compositores baianos.

Eu a conheci quando ela ainda se encontrava no auge de sua beleza, quase selvagem, quase intocada. Foi amor à primeira vista. Encantei-me com a sua magnífica formosura. E a cantei em meus versos, pelo menos em dois poemas antigos, escritos há aproximadamente três décadas. Eu os escrevi sob o impacto do esplendor de sua paisagem mágica, encantada.

Em 1981 ou 1982, com sua paisagem ainda exuberante, e ainda se mantendo como um notável santuário ecológico, nela comemorei minha aprovação para o cargo de fiscal da extinta Sunab. A Fátima, então minha namorada, me deu um carneiro e o Canindé Correia patrocinou uma caixa de cerveja, de sorte que praticamos essa festiva libação à beira dessa “lagoa de águas plúmbeas”, como gostava de dizer o jornalista Rubem Freitas, sob um de seus copados cajueiros. Estavam presentes alguns amigos, a maioria ligada ao jornal Inovação.

A primeira vez que a vi foi em 1978 ou 79. Tinha ido à praia de Atalaia, que gostaria de chamar de Amarração, de amar, amarrar, atracação e ação, ação também de amar. No retorno, o Reginaldo Costa resolveu seguir para a Lagoa do Portinho, e eu o acompanhei em minha motocicleta. Deslumbrei-me com o fascínio do lugar.

Na época, só existiam, salvo engano, duas rústicas churrascarias. Uma verdadeira floresta de cajueiros lhe ornava grande parte da orla. Do lado oposto, ao longe, as dunas se erguiam, majestosas e magníficas. Nessa época, poucas pessoas possuíam veículos, e não havia linha de ônibus com destino à lagoa, de modo que relativamente poucos parnaibanos e turistas a conheciam.

Ainda no final dos anos 1970, eu, Bernardo Silva, Paulo de Athayde Couto, Rosângela Santos e outra pessoa, cujo nome não recordo, fomos fazer uma espécie de piquenique à beira da lagoa. Seguimos por uma trilha, que acompanhava a sua margem, por entre os frondosos cajueiros, então abundantes, até alcançarmos as dunas mais altas. Ninguém nos incomodou, mas logo retornamos, expulsos por um festival de mosquitos, que estavam insuportáveis e sanguinários.

A partir de então, com relativa assiduidade, quando eu voltava do mar, ia “retirar o sal” nessa lagoa. Numa das vezes em que lá estive, no final dos anos 70, a natureza foi deslumbrantemente caprichosa. Quando cheguei o sol brilhava como nunca, mas de repente, muito mais que de repente, o céu se fez nublado, e uma chuva fina, mansa, começou a cair. Logo depois o chuvisco cessou, e o sol voltou ao seu esplendor ainda com mais intensidade. De repente era calor, repentinamente houve frio.

As dunas e as águas da lagoa acompanharam essas mudanças de temperatura e luz. Tomaram diferentes tonalidades, e ora reverberavam ao sol intenso, ora se mantinham discretas, como se estivessem em penumbra. Para maior encantamento, estava na churrascaria uma bela jovem “de sinuosas dunas e viagens”; os seus cintilantes olhos claros, não sei se verdes ou azuis, “furta-cores furtaram / outros tons e sobretons”, como expressei no meu velho poema Mulher na Lagoa do Portinho. Os relevos, entrâncias e reentrâncias, enseadas e istmos da moça pareciam projeções das dunas da lagoa, ou as dunas é que seriam projeções da ninfa, já não sei ao certo. O certo é que foi uma tarde encantada.

Em outro poema, também antigo, justamente intitulado Lagoa do Portinho, em versos emotivos e sentimentais, tentei exaltar, com ênfase, mas com a verdade, toda a beleza, toda a magia, todo o feitiço desse extraordinário patrimônio natural. Agora, pranteio a sua (quase) morte, e como Raquel, no texto bíblico, sem aceitar consolação, porque a lagoa já (quase) não existe.


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